Levaste-me tudo!
Levaste-me a alma, o maravilhoso sabor da expectativa, a impagável
sensação de ter futuro. Levaste-me tudo! E já nem me debruço sobre a forma como
levaste tudo, a forma como me roubaste a inocência toda. Já nem desespero com a
memória do roubo, com a forma consumada de roubo, com a ausência de retórica.
Acho que consegui ficar exausta para a vida toda durante o tempo em que ainda
desesperava. Acho que acabei por assimilar, com uma naturalidade que já me
assustou e agora só me sabe a apatia, a exaustão como se de rotina se tratasse.
Levaste-me tudo!
O sonho, o suspiro profundo, a certeza do abraço. E já nem me entristeço
quando recordo o tamanho do roubo. Assimilei a sensação, julgo eu. Acho que me
levaste até a capacidade de sentir maior ou menos tristeza. Acho que ao me
levares tudo, roubares tudo, consumares ainda que sem retórica o roubo, me
deixaste só a apatia de não saber medir mais nada.
E mesmo assim não há dia que não me lembre de como era o tremer por
dentro. Não há dia que não recorde como o abraço conseguia concentrar o futuro
todo. Exatamente! Essa sensação que me roubaste pela ausência de retórica fosse
ela, pelo menos, já nem desespero, já nem peço, já nem procuro mais, pelo menos
deixada no momento do roubo.
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