quarta-feira

Ap2 / Ap3 / ApImf



Levaste-me tudo!

Levaste-me a alma, o maravilhoso sabor da expectativa, a impagável sensação de ter futuro. Levaste-me tudo! E já nem me debruço sobre a forma como levaste tudo, a forma como me roubaste a inocência toda. Já nem desespero com a memória do roubo, com a forma consumada de roubo, com a ausência de retórica. Acho que consegui ficar exausta para a vida toda durante o tempo em que ainda desesperava. Acho que acabei por assimilar, com uma naturalidade que já me assustou e agora só me sabe a apatia, a exaustão como se de rotina se tratasse.

Levaste-me tudo!

O sonho, o suspiro profundo, a certeza do abraço. E já nem me entristeço quando recordo o tamanho do roubo. Assimilei a sensação, julgo eu. Acho que me levaste até a capacidade de sentir maior ou menos tristeza. Acho que ao me levares tudo, roubares tudo, consumares ainda que sem retórica o roubo, me deixaste só a apatia de não saber medir mais nada.

E mesmo assim não há dia que não me lembre de como era o tremer por dentro. Não há dia que não recorde como o abraço conseguia concentrar o futuro todo. Exatamente! Essa sensação que me roubaste pela ausência de retórica fosse ela, pelo menos, já nem desespero, já nem peço, já nem procuro mais, pelo menos deixada no momento do roubo.

Sem comentários: