Eu sou
contra as peixeiradas mas às vezes apetece-me gritar.
Mas estou completamente certa, e “certa” no sentido de ter razão e no
sentido de
certeza, de que sou contra as peixeiradas. Mas quantas vezes me apetece
gritar?! “Quantos gritos cabem em um silêncio?” Mil? Milhares? Milhões?
Apenas
alguns? O meu silêncio fez de mim anónima. E o anonimato dói-me,
corroí-me por
dentro como se o silêncio fosse ferrugem. O anonimato faz-me sentir vã,
banal…
E a banalidade, mais do que doer, magoa-me. Quanto tempo se demora a
assimilar
uma perda? Quanto tempo mais tenho eu de esperar pacientemente para que a
ausência
se esqueça de mim e se desagarre do meu corpo, se desagarre das minhas
mãos que
tocam nada, se desagarre dos meus lençóis macios que deslizam corpo
abaixo sem
trilho, mesmo que goste, em delírio sonolento ou febril, de assimilar
esse
deslizamento de tecido macio como se de um toque de mãos se tratasse.
Por ser
contra as peixeiradas às vezes sufoco ao imaginar que sem um escarcel
digno
deste nome, me tomem por perdedora e desistente fácil. Quando sinto que
luto,
no sentido de saber esconder o ranger dos dentes e os olhares
envenenados de
desespero, mais do que o luto em si, o luto da ausência e da perda,
deveria
permitir. Esquecer alguém que se ama é impossível. Pode-se aprender a
viver com
a dor ou até deixar de a sentir momentaneamente. Mas esquecer aquele
descer de
calçada em passo largo, a trote, com a felicidade toda do mundo a
transpirar
porque é tanta e tão saborosa que não sabe caber dentro do corpo. Não se
esquece. Os suspiros profundos após um olhar ou um simples toque de mão –
mesmo
quando as mãos nem se tocavam fisicamente e os olhares se faziam de
soslaio
rápido como uma travessura – quando lhe conhecemos o sabor, é como ter
despertado
para o melhor orgasmo. Não se esquece. Nem a dor, na ausência, por
muitas
peixeiradas que pareçam apetecíveis de fazer para exalar o “mau perder” e
dar
de bandeja visível aos olhos o que, no intimo, se deseja que saibam que
causaram, faz esquecer o trote, o suspiro profundo, aquela sensação de
“felicidade
toda que nem cabe dentro do corpo”. É por isto que o anonimato se
camufla de
ferrugem corrosiva e dói mais, magoa muito, volta a ferir e fere mais no
fundo,
abre mais lanhos na carne, mancha o lençol de sal e quase de sangue. O
anonimato sou só eu, a pessoa que não gosta de peixeiradas. É que
existem
tantos livros, tantos psicólogos, tantas reuniões de auto-ajuda que
ensinam a
perdoar e a esquecer – sem que perdoar nem esquecer sejam estados que se
assimilem, obrigatoriamente, ao mesmo tempo – mas não existe nada que
ensine a “desamar”.
Então, concluo que não se esquece quem se ama… Pode-se aguardar que a
fúria
passe... Pode-se acreditar piamente que se percebeu o bem maior em que
se traduziu o
desaparecimento… Pode-se tentar terapias em reuniões, em discotecas, em
consultórios, em festivais, em sentido de responsabilidade pelas tarefas
profissionais ou familiares acumuladas ou inventadas, em trotes
arrancados a
ferros com o corpo a explodir contra as súplicas de descanso do coração,
mas não
se esquece… Alguém se esqueceu do seu melhor orgasmo? Atenção: não
perguntei o
primeiro! O melhor grito vindo das entranhas? Aquela vez em que o corpo
se
desprendeu do próprio corpo, suspenso estava no tal grito vindo das
entranhas?
Alguém se esqueceu do sabor, do odor, do fogo-de-artifício que exalou da
sua
pele no seu melhor orgasmo? Então porque é que se insiste que basta
esquecer ou
perdoar para “desamar”? O suspiro prolongado à noite no primeiro dia do
resto
da minha vida, após troca de olhares de soslaio e de toques de mão que
fisicamente nem se cruzaram, não me permitem um trote novo, porque esse
momento
sabe mil, milhares, milhões de vezes melhor do que o meu melhor orgasmo.
Não sou
de peixeiradas e não sei “desamar” – são estas as certezas que tenho,
estando
certa, completamente e profundamente e conscientemente certa de que um
grito não vale mais do que um silêncio, nem um silêncio vale mais
do que o melhor trote do mundo. Por isso: não esqueço! Por isso: não
perdoo!
Por isso: aceito, simplesmente!
sexta-feira
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário