sexta-feira
4 x 12 (2)
Se me batesses à porta a uma hora qualquer, num dia qualquer, numa qualquer circunstância sobre a qual nem pediria pormenores, para me convidares a sair, a respirar… Deixava tudo. E esquecia-me de quem sou, de onde venho, de quem me cria, e ia. Saber-te-ia arrependido no dia seguinte. Reconheceria, de imediato, os sinais de quem está já ausente, a calar a culpa, a calar a palavra “fim”. E não ta exigiria. E desprendia-me de ti fisicamente. O corpo havia de conseguir arrastar o coração dali. A luta seria selvagem e a sangue frio, mas seria em silêncio nem que rangessem por dentro os dentes e a língua sentisse a carne viva. Seria em silêncio. Não tenhas medo. Seria sempre e outra vez e sempre em silêncio. Se me batesses à porta hoje, adivinhando o teu arrependimento amanhã, ia agora! Ia! Já! Ia! A noção do teu arrependimento amanhã é tão pequena perante a felicidade do hoje que o ontem teria valido a pena nem que fossem dois, três, quatro, dez, cinquenta ou mil anos depois. É aqui que dói mais. É aqui que correm as lágrimas grossas. É aqui que se mordem os lábios para não deixar emitir sons denunciantes. É aqui que se encolhem os dedos para não escrever perguntas retóricas, para não se fazerem pedidos desesperados. É aqui que os punhos mais se cerram em posição de defesa perante o próprio “eu”. É aqui, na consciência de que se conheceu a sensação do que é “Amor”. E no medo de não voltar a experimentar o tremer do peito, a mão a passar-me pela testa. A tua! Sim! E tu nem sabes disso. Ia contar-te num momento bonito e só nosso. Perdi a oportunidade quando fui deixada na invisibilidade. Afinal, não existo. E é aqui que, sem doer, magoa.
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