Às vezes, provavelmente nos momentos de maior desespero e de pouco
altruísmo – porque o desespero é o braço direito da maldade – penso que devias
saber, devias ter noção, devias sentir um rasgo no peito, por pequeno que
fosse, e saber, ter consciência, do sofrimento que encerra esta luta, este
silêncio…
É nessas vezes que me aninho mais prontamente e me separo de tudo o que
pode ser comunicação com o Mundo. No medo de te interpelar. Conheço tão bem os
sinais que vão antecedendo este estado de alerta ao Mundo que aprendi a
contraria-los como se tivesse eu própria inventado um método anti-dor que a ser
descoberto, testado e registado, seria milionário.
Já experimentei vários cantinhos para fazer o ninho e aperfeiçoei-o,
ainda que saiba que carece de mais elementos de perfeição porque nem sempre é
tão instantâneo quanto gostaria que fosse o fim da luta selvagem com as mãos, com
o peito, com a garganta, com os olhos, por te interpelar.
Às vezes, provavelmente quando a solidão dá sinais de querer ser
auto-suficiente, e não, como a decidi que seria, simplesmente voluntária, tenho
vontade que saibas e sintas o rasgo no peito, por mais pequeno que fosse.
Não conheço a dor que uma bala causa quando perfura a carne, nem tão
pouco a dor de uma lâmina a rasgar a pele, à parte de uns cortes domésticos
cujo maior me obrigou a receber pontos numa mão. Estava inebriada e muito cansada
nesse dia. Tinha aguentado a dor durante muito tempo para poder acabar o jantar
e depois para manter-me presente à mesa. Tinha atacado os “sedativos”
existentes e às tantas desconhecia se as tonturas me resultavam do álcool consumido
presente no corpo ou do sangue que dele saia. Agora tenho pena de não me
lembrar melhor de como foi essa dor.
Tenho pena que não exista um medidor de dores corporais que nos faça, ao
longo da vida, contagem dos “decibéis” de dor: aquela vez com sarampo, depois a
rachadela nas escadas de pedra da minha avó, ou quando o cão do talhante me mordeu, a queda de bicicleta quando meu pai me tirou as rodinhas laterais, os 10
dentes de leite arrancados pra dar lugar a outros, o corte na mão em Santiago
enquanto preparava rojões e castanhas pros ERASMUS, as cólicas insuportáveis de
manhã antes de ir trabalhar, aquela vez com febre e delírios e de corpo
dormente com frio e calor ao mesmo tempo, sem posição pra cabeça, sem estomago
pra um único chá…
Tenho pena que não exista um medidor de dores corporais. Queria compará-las! Ter noção se é melhor cair ou estar assim. Saber se vale a pena rasgar qualquer coisa à face da pele para substituir isto pela dor do corpo.
Tenho pena que não exista um medidor de dores corporais. Queria compará-las! Ter noção se é melhor cair ou estar assim. Saber se vale a pena rasgar qualquer coisa à face da pele para substituir isto pela dor do corpo.
Sobre “isto” sei só que é insuportável. E por me manter viva perante a
certeza de que “isto” é mais do que qualquer mulher pode suportar na vida – sem
falsas modestias ou manias de heroína – sei que “isto” é, provavelmente, mais
forte que uma bala a trespassar o peito.
Então, sobretudo quando o ninho demora a fazer efeito, tenho vontade de
te gritar aos ouvidos e de te espremer os pulsos e de dar murros no peito, para que saibas e conheças a minha
luta, para que me sejas grato, para que me admires pela capacidade de te
poupar. Porque te amo mais do que a possível saciação dos meus desejos!
Esta vontade acontece, provavelmente, quando te amo um bocadinho menos.
Um bocadinho que nem tem tempo de vir à tona porque o amor que te tenho é tão
enormemente grande e enormemente indiscutível e enormemente fiel - FIEL porque ser-te fiel no amor é bem diferente de te ser leal na dor que me provocas - que esse
bocadinho se acanha, enrola-se e esconde-se, envergonhado.
Amo-te, meu amor, mesmo antes de te conhecer.
Amo aquilo que sempre imaginei que serias.
E amo-te depois de te ter conhecido, depois de te ter tido para mim e depois
de teres partido, e sempre mesmo quando não te quero de volta.
Amo-te, meu amor, pelos olhos, pelas mãos, pelas palavras, pelos
silêncios, pelo que foste comigo e pelo que nunca me deixaste ser contigo.
Amo-te, meu amor, infelizmente, eternamente!
E às vezes quero que saibas isso e escrevo emails ou mensagens desesperadas
que raramente, felizmente, chego a partilhar seja contigo ou com quem seja.
Mas, confesso, que às vezes quero, desejo com todas as minhas forças que saibas
o tamanho do meu amor… Não porque regressarias para os meus braços – eu já não te
quero – mas porque me serias grato ao perceber o tamanho da minha luta, o
tamanho do meu desespero, o tamanho do rasgo que me deixaste no peito.
É assim como um nó que não desata e, pelo contrário, está cada vez
maior e em novelo. Imagino-o – se existisse uma radiografia que mostrasse a
cores como são os nós de amor do peito – como uma espiral, cujo rabo vai
tocando na cabeça como se estivesse a rir-se da sua capacidade de crescer e
fortalecer-se perante a incapacidade da outra parte de o cortar pela raiz, se
desprender, se superiorizar. Um novelo escuro com fumo à volta, mas perfumado,
bem desenhado, de traços bem vincados. Imagino-o assim: com aquele ar de doente
determinado que se arranja sempre impecavelmente e até no cair se vai prostrando
com subtileza. É assim o meu nó, o rasgão no peito que me deixaste. É de uma
dor insuportável por se saber enquanto “dor” e não enquanto “estado”.
Quando desejo que conheças a minha luta diária, apetece-me gritar-te
aos ouvidos que me mantenho, dois, três, quatro, cinco, seis anos depois, leal - LEAL que a lealdade é bem diferente da fidelidade e foi só nisso que erraste, e muito, comigo - a ti. Apetece-me que saibas que sinto desfeita por dentro quando, estranhamente
e tão surpreendentemente quanto fugaz, tremo por dentro ao possível sabor de um
novo amor. Quero que saibas que tenho mil perguntas para te fazer e que desejo,
preciso, desespero por respostas como se essas fossem o passo adiante que me
falta dar. Desejo que me leves os restos de ti daqui para fora porque já
ofereci alguns, já parti em fúria outros e os que cheguei a colocar em sacas
para deitar fora, doar ou queimar nunca me saíram – e foram tantas as
tentativas – das mãos na hora de os depositar no contentor… Parecia que me
ardiam os tendões na hora de os atirar fora. Uma das vezes quase não senti movimento
nos braços e precisei de os agarrar, espremer, maltratar para que me obedecessem.
Nessas vezes acho que merecia mais de ti… E é ai que o tal bocadinho se
acanha, se envergonha e se esconde… Como se este desejo fosse uma heresia! E
aninho-me no ninho… Longe de formas que possam resultar em interpelações, longe
de sítios em que os gritos fossem audíveis… Abanar vezes sem conta até o
pescoço sentir peso… Engolir de golada os “sedativos” que suportam esse peso…
Enrolar-me em mim própria como se fosse a imagem viva do tal novelo do peito
para que o peso se sobreponha aos gritos.
Eu luto todos os dias, meu amor – e convicta de que a batalha é
solitária e não pode nunca ser-te visível e pesada (por mais que às vezes me
apeteça e me doam os nós dos dedos e a língua se enrole atras dos dentes até
fazer ferida) – porque te amo desde sempre e mesmo antes de te conhecer e mesmo
depois de me teres deixado. Amo-te, amor da minha vida, de forma igual, ainda
que sem o mesmo indescritível tremer no peito, a quando comigo estavas, aquele
bocadinho que me permitiste chamar-te de “meu”, sendo que eu serei sempre “tua”.
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