Foi revolta. Demorei a ter coragem de escrever, mas soube-o na hora. Revolta! Imediatamente a seguir a fixar os olhos em ti, primeiro de longe, depois mais de perto antes até de te voltares, por fim de olhos fixos nos teus olhos turvos, nos teus gestos tremidos, na tua voz arrastada. Enfim… Revolta! Talvez: finalmente revolta! Ou provavelmente: agora revolta! E o “agora” é um advérbio que diz tão pouco do que sou em relação a ti… São, aliás, tantos os advérbios, as palavras, os significados que dizem “nada” sobre mim no que sobre ti diz respeito. Conheço apenas uma letra que justifica “tudo” do que sou em ti… “E” de nós, “E” de amor, “E” de ancas a baloiçar em suor coladas corpo a corpo em noite de concerto, “E” de copos a brindar sem se tocarem em lados opostos da mesa, “E” de Mundo, “E” de vida… “E”terno como o “E”mbalo! “E”terno como o nosso “E”! E N C A N T A M E N T O ! ! “E” de mãos que se enlaçam sem terem a certeza que se conhecem. “E” de beijo roubado na rua! “E” daquele momento só nosso que guardei, ingenuamente, pra um relato só nosso. o “E” que completa o título anterior. “E” de vida, “E” de Mundo, “E” de amor, “E” de nós! Conheço só um adjetivo que me define em ti, sobre mim em ti, sobre o que és em mim: “eterno”. Por isso é que não temi a revolta! Confesso até que a saboreei. Apesar das lágrimas, apesar dos pulsos cerrados, apesar dos gritos calados, da garganta seca, do nó, do soco, apesar das lágrimas que esperaram horas por rolar livres, grandes e grossas, apesar dos gritos continuarem calados, apesar da garganta só ter provado o sabor da anestesia horas depois e do soco e do nó permanecerem sempre, permanecerem no eterno, apesar de tudo, saboreei a revolta. E foi revolta, afinal… Ainda que custe admitir… Ainda que me doam os nós dos dedos ao escrever a palavra “revolta”. Foi revolta! Finalmente? Talvez! Num tempo em que és eterno, meu amor, “finalmente revolta”, admitir, verbalizar, tomar coragem, é simplesmente conjugar advérbios com nomes… Que interessa? Que força têm, quando temos O substantivo?!! “E”! E N C A N T A M E N T O ! !
Se soubesses as vezes em que me debruço aqui a olhar os
carros. Conheço tão bem os rituais dos arrumadores. Sei as horas em que os cães
passeiam os donos do prédio em frente. Tenho a mente carregadinha de histórias
sobre possíveis traições e possíveis fugas e possíveis encontros e possíveis
descobertas. Já identifiquei filmes vistos em casas alheias pelo ouvido e
músicas ouvidas em apartamentos vizinhos pelo olhar, olhar de outros, mas olhar…
Sempre aqui debruçada, meu amor! Se soubesses a quantidade de noites.
Afinal, apesar da revolta, também começa por “E” outra
palavra que me define a mim sobre ti, me define quanto àquilo que sou por ti,
meu amor, por existires, por te ter conhecido… “E” de “E”spera!
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