quarta-feira

S

Um dia destes, já não tenho a certeza se na semana passada ou na semana anterior à passada – porque se perde a noção dos dias e das horas e do tempo quando se está, permanentemente, à espera de nada – uma amiga comentou comigo que estava a redecorar/organizar/ocupar o quarto das visitas valendo-se, além das mobílias emprestadas pela sogra e dos caixotes que a mãe tinha tirado do seu quarto de adolescente, de uma exploração na net sobre a melhor posição para a cama face à porta de entrada e à janela, as energias que uma parede deve ter ou evitar para um sono mais tranquilo, as cores, os objetos… Inevitavelmente li o mesmo blogue e as mesmas conclusões e comparei-as com o meu quarto, o único quarto onde realmente escolhi a decoração, o que guarda, a posição dos móveis e até mesmo quem cá entra, a quem dou o “privilégio” de dormir nele, não estando reservado a mais ninguém, se não a um só, determinado lugar da cama. Descobri que as minhas cores não são proibidas porque são “leves” e “frias” e que a mobília está posicionada de acordo com as “normas”. Mas descobri também que não são aconselháveis os livros porque “carregam” muita força através das suas personagens, que nas paredes não devem permanecer quadros que evoquem sofrimento ou tristeza, e as lembranças guardadas dentro do quarto, ao que parece, “dificultam a nossa caminhada evolutiva”… E eis que me deparo com a constatação simples de que “guardo” completamente exposto o mais belo e feliz, mas também o mais desesperante e sofrido, quadro de todos, aquele, cuja gravura pouco imediata à interpretação de quem julga conhecer-me bem, já me obrigou a fazer esclarecimentos, todos eles vagos. Interessa-me pouco que não percebam porque está ali. Aliás, interessa-me menos que, se o explicasse, coisa que não faço por determinação e feitio, não percebam porque ali permanece no local mais visível aos meus olhos ao acordar, ao adormecer, ao escolher na gaveta abaixo a roupa interior, ao colocar o perfume pela manhã ou mesmo depois de um longo banho antes de me enfiar, madrugada dentro, na cama, sem razões pra perfumar o corpo, quase sempre por querer perfumar a alma. Nunca, me interessou, a verdade é essa, que me percebessem. A real explicação só a daria, caso pedida, ao dono do lugar da cama. Muito menos que me percebessem perante os rituais com o perfume, os rituais na troca de lençóis de cama, os rituais que o olhar faz já sozinho, sempre voluntarioso, sem ordem do hemisfério esquerdo responsável pelo pensamento lógico. Porque já nem lógicos são os rituais… Se calhar lógicos é o que nunca foram! Sobre os livros haveria de decidir, de imediato, que sairiam do quarto até porque é uma tarefa adiada. Sempre os quis na sala, catalogados, alinhados numa ordem só minha que misturaria história com autores, anos de lançamento, géneros… Não imagino a estante dos meus sonhos – de cima abaixo da sala, quiçá com uma escadinha para percorrer as estantes altas, como se vê nas bibliotecas – com livros alinhados respeitando regras que não perceptíveis a mim própria, ao estado de espirito do momento em que os li, ao que me fazem recordar, ao que motivou a compra. Era o que faltava, aliás, que me viessem com as tretas de que os romances ficam na estante abaixo ou acima dos livros de história e geografia que “devem” ladear os atlas ou as que biografias são alinhadas por ano cronológico dos biografados quando imagino que Martin Luther King tem de estar ao lado de Romeu e Julieta, enquanto os poemas sobre Pedro e Inês, os quero longe dos escritos por Álvaro Campos, e Noam Chomsky tem lugar de destaque junto a Ítalo Calvino. Os livros – por o ter decidido EU há muitos anos e NÃO porque o tal potencial energético que carregam pode perturbar o sono –, sairão do quarto assim que a estante idealizada seja uma realidade. Quanto às recordações, lembranças, objetos do passado, esses já foram sendo expulsos/substituídos/reguardados em espaços novos/ destruídos, por razões mais ou menos lógicas, mais ou menos dramáticas, mais ou menos naturais como a necessidade de ter uma gaveta para os xailes que agora estão na moda ou para separar melhor os pijamas de inverno e os de verão. O quadro permanece. Só eu, afinal, o entendo. Eu e a senhora que mo vendeu na feira da ladra. Confessei-lhe, ao ouvido, inebriada pelo seu sotaque estrangeiro misturado com um desejo vigoroso de se fazer entender em português, que me deu uma sensação de familiaridade arrepiante, que escusava de me mostrar mais edifícios importantes ou simbólicos da cidade. Queria aquela paisagem e não outra. A dúvida permanecia apenas entre comprar o quadro com as linhas mais definidas, feito pelo mais delicado e rigoroso pincel, ou o que parecia ter sido feito com tinta-da-china derramada numa esponja depois carimbada sobre a tela. Aconselho-me, depois de lhe explicar, ao ouvido, o porquê da paisagem, e perante o olhar feroz e interrogativo de quem me acompanhava na busca com uma curiosidade instantânea imediatamente esquecida na banca seguinte, a comprar o que segurava com a mão esquerda porque tinha sido feito com “corazón”. Os livros, portanto, retiro-os. Aos objetos do passado dou a liberdade de decidirem o seu destino. O monumento haverá de permanecer ali pelo tempo – o tal que aguarda um sinal de nada – que a “parede”, o “corazón”, o “perfume”, se mantiverem de pé! Há quem lhe chame “desassossego constante”. Eu chamo-lhe “coragem”! Afinal de contas, como um simples quadro de parede, “o coração, se pudesse pensar, pararia”!

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