“Tenho saudades de ser de alguém” – hoje uma amiga angustiada por “não ter uma relação séria há anos” disse-me esta frase. Foi inevitável. Lembrei-me de nós. Existia “nós”. Às vezes – já escrevi sobre isto – não me lembro automaticamente que não existe “nós”. Chego a sorrir. Chego a fazer planos simples pra esse dia. A ida à esplanada ao final da tarde. O cheiro a peixe que não nos incomoda. Os desabafos sobre a rotina que passa a ser tão pequenina quando nos vemos e nos tocamos. Também tenho saudades de ser de alguém, mas, é inevitável, absurdo, insuportável, mas tenho muito mais saudades de não ser tua.
Estive ao sul há uns dias atrás. “Desilusão” é a primeira palavra que me ocorre porque imaginei a minha incursão pelo Sul acompanhada numa atmosfera bem diferente da que realmente aconteceu. Mas estar longe da realidade foi absolutamente libertador. “Liberdade” é a palavra síntese que encontro para esse meu fim-de-semana em Avante!
Foi inevitável – não por te imaginar, nem por, confesso, te desejar, lá – pensar em ti. Vi, num dos passeios solitários por um recinto repleto de mensagens, imagens, música, letras, títulos, personagens do passado daquelas que te explicam como fazer o futuro, um livro que me fez, imediatamente, pensar em ti. E chorei de felicidade. Sozinha e liberta. Chorei de felicidade porque não te queria ali, nem comigo, naquele momento. “Desilusão” e “Liberdade” no recinto que pensei que seria de “Descoberta”.
Transportes Sul Tejo. Lembrei-me também. Suspirei até… Acho que, cheguei a desejar durante alguns segundos longos daqueles que se abstraem da realidade por esta ser menor, quase sempre, do que a memória. Do que a memória das saudades de ser tua.
Raciocinar sobre o facto de ter saudades de alguma coisa não é nada de novo. Hoje mesmo, a propósito de uma mensagem do meu “amigo abrigo”, suspirei com saudades de ser amiga de alguém. Suspirei com saudades da pureza do ilhéu de sempre. Raciocinar sobre ter saudades é tão banal quanto ter sede de olhar em frente, estando sempre um passo atrás do futuro, por raciocinar no passado que me faz ter saudades, constantemente, de ter sido de alguém. Aliás, de ter sido tua! Raciocinar sobre “nós” é doloroso todos, todos, todos os dias. O vazio não se explica. Está nos comentários que não são ouvidos. Nos cheiros que não se fundem. Nas vezes em que estico os braços e é sobre nada que me abraço à ilusão de que ali esteve tudo. Dói demais ao ponto de preferir não me lembrar automaticamente. Criei, talvez, um forte à volta da dor. Quando está para vir um daqueles apertos demorados que já sei distinguir com a nitidez de quem distingue o dia da noite, enrosco-me no forte anti-dor e espero que passe. São inevitáveis os livros de água salgada derramados. Libertadores! Acho que, na ausência de “nós” gosto de sentir o aperto que me recorda porque é que dói essa ausência de “nós”.
As pequenas coisas que pairam à volta de um dia rotineiro atraem-te pró meu pensamento sem complacência. Já nem discuto o porquê da crueldade da emissora de rádio. Já nem desespero por te ver em cada canto, em cada coisinha pequenina e simples, em cada frase de criança inocente, em cada raciocínio inteligente de gente grande. Já nem questiono o poder que tens sobre mim porque sei que não és tu, mas sim as saudades de “nós”, as saudades de ser tua, muito mais do que as saudades de ser de alguém.
sábado
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