sexta-feira

BV10

Os movimentos na cama, a rotina da sala, a sensação inexplicável de que não há mundo para além do amor, de olhos fechados e olhos abertos, iluminado por um sorriso rasgado e reflectido, assimilado, dorido, asfixiado por lábios mordidos e dentes rangentes. O grito. O sorriso. O amor de olhos abertos a fechar.
Gosto de te sentir os ombros e de ter as tuas mãos cravadas nas minhas (ou as minhas nas tuas) para além do silêncio dos gritos. Gosto de fumar à janela enquanto de mimas a pele sem toques leves, já numa troca de olhares profunda, insinuante, despudorada, verdadeira, antecipadamente e caladamente (ainda) ofegante.
Amar sem qualquer sentido de chão, de terra, de plataforma real de realidade. Lembro-me de acordar (se é que acordei, partindo do principio de que adormeci) e de sentir a electricidade toda a percorrer-me as veias. Lembro-me de ter tido necessidade de me agarrar aos teus poros. Absorvias-me. Lembro-me de olhar para ti, sereno, profundo, repousado (acho que disseste “protegido”) e de ter feito um esforço enorme para não soltar um suspiro ruidoso.
Gosto do calor e do frio, do suor e dos arrepios, de estar encaixada e de te sentir a respiração e de estar enroscada e de respirar contigo. Gosto de acordar sem saber onde tenho as mãos porque sinto uma extensão de mim. Gosto do vicio que é percorrer o teu corpo com a ponta dos dedos e até gosto do dilema sobre se devia fazê-lo por correr o risco de te acordar do sono. Gosto do te beijar as costas e de te beijar o peito e de repousar em ti e de me deixar cair, desfalecer, desmaiar, sucumbir às sensações, aos sentidos, à necessidade de tacto constante e à necessidade ansiosa e eminente de ter de abrir os olhos, olhar, constatar e suster o suspiro, e repousar em ti.
E gostei da ideia de trocarmos de lugar porque agora mesmo tudo isto cheira... Os braços estendidos e as almofadas trocadas, tudo com sabor, com odor, com, arrisco, com ritmo.
Pelo vicio de saber que, nos teus poros, as pontas dos meus dedos percorrem a melhor parte de mim e porque este suspiro não calei… Bom dia Portugal!

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