sábado

só(u)04.11

Esta é uma ideia, uma necessidade, que me assalta há semanas... Falar, lembrar, não deixar esquecer, retratar, os/as minhas colegas de casa ou simplesmente quem por aqui passou. Quem foi passando por esta casa, agora com paredes pintadas de verde e beje e ainda sem cortinas, por este refugio que sempre teve o dom de se entregar, de saber receber, de ser inteiro, quando foi refugio permanente ou esporadico. "Local de passagem"/"Casa Encantada"/"Canto"/"Rotina"/"Vida".
Cheguei algures no início do novo milénio de 2000. Para estudar e fazer-me mulher. Vivi com a minha irmã e com a C, a transmontana de Moncorvo, do Carviçais, a "Pequena Nuvem", das linguas da sogra com doce, das noites adiadas que acabaram numa retirada fugitiva de um taxi... O "irmão mais velho" e os amigos/colegas de sempre e das três fazem parte do álbum da menina a fazer-se mulher que só tomou consciência disso no primeiro dia depois daquele 22 de Maio. Lembro-me de entrar em casa e perceber que estava sozinha. Lembro-me de ter descaido, dramáticamente como nos filmes, ao longo da parede do hall da entrada ao assimilar que estava mesmo sozinha. Não imaginei os próximos elementos do álbum nem pensei ser capaz de continuar a preencher as páginas em branco desse álbum com novas pessoas.
Acho que escrevo isto hoje, nesta nova década de 2000, por ter uma certa certeza de que, à parte do esporádico, o refugio já se convenceu, aliás deseja a solidão.
Naquela era essa hipótese não se colocava. E veio a N, de A, e a I da A, com o F, de A, e com o S, do P (respectivos). Eu estava refugiada num ERASMUS de ilusões e descobertas. Refugiada numa fuga decidida a pulso e conquistada muito meses depois da chegada a Santiago. A "Pequena Nuvem" foi a responsável. A minha irmã, plena da sua autoridade de senhoria, deu o aval final. Entreguei! Fugi! Regressei! Encontrei o meu casal de A, fui a "Coisa", a "filha", partilhei, discuti regras de estacionamento, partilhei torradas no Académico, aprendi, aprendi a ceder, a viver em comum, fui mimada, fui adoptada na minha própria casa. Cresci! E voltei a sentir a sensação de ser sozinha!
Naquele momento a hipótese até já se colocava. Acasos, coincidências ou destino... Em horas muito estranhas, rápidas demais e sem lugar a raciocinios, voltei a partilhar. Agora com a minha L que para chegar ao centro da Capital apanha barcos. C. Um primeiro dia de sensabilidade asfixiante adivinhava desgaste. Não dei, agora penso muitas vezes nisso, o devido valor a esta nova companheira. Talvez por ter sido a maior "colega/amiga" que tive neste refugio. Talvez por lhe ter medo. Talvez por ter medo da sensibilidade. Por ter medo ao perceber que conhecia tantas das minhas fraquezas. Talvez por me ter conhecido no auge... (outra vez por culpa/intermédio da C. de sempre)
Nova era. Era da dificuldade sinónimo de emoção. Naquele momento a vinda da minha S. para este refugio suou a isso mesmo... Refugio. Ajuda-me! Agarra-me! "Estás bem entregue", disseram-me uma vez. E estava mesmo. Não socumbi, não desabei, não desfaleci, muito por ter a minha S. como âncora. Invejo, muitas vezes, a genorisidade desta amiga, o autruismo deste ser humano, a humanidade da minha S. Não sei se foi o melhor período deste refugio - sobretudo porque foi na era em que tudo tinha sabor a nada - mas foi o melhor período de passagem não esporádica mas também não permanente que esta "Vida" conheceu. Por ser isso, por só pensar nisso, por desejar, ambicionar e lutar por isso... "Ser vida" por não ser sustentável, ela não deixava, ser outra coisa.
Antes, pelas páginas ímpares deste álbum, passaram amigos, colegas, namorados, pais e mães... Lembro com um sorriso enorme nos lábios a partilha de cama, a cama mais pequena do mundo, com a minha C. Cabiamos em qualquer sítiozinho. Lembro-me do nevoeiro constante engriagado de uma sala repleta de italianos em semana de Queima, em ano de ERASMUS: o A., o G., a E., a M.. Lembro-me das idas e vindas da minha S. e de tantos outro "meus" meninos e da semana em que, também para fugir, a minha "Sininho" assinalou este álbum com promessas nunca (ainda) cumpridas. Lembro-me de teres servido de asilo a italianos que nem conhecias: a C. e o M. Mais tarde a M., que já conhecias melhor. Lembro-me das duas semanas da futura directora comercial terem começado a moldar-se aqui entre receios sobre a indumentaria mais adequada, entre receios sobre o que esperar do futuro, entre receios sobre a tudo e sobre nada... A S. está, agora e por hoje, sossegada, aconchegada, no quarto que não é de ninguém por ser de todos, depois de ter começado por ser meu e da senhoria.
Lembro-me das jantaradas que deixei de saber contabilizar e dos convites que deixei de saber se foram ou não feitos, como, quando e onde? Lembro-me do S. João em que perdi a conta às febras grelhadas e às malgas de caldo verde servidas, das cascas de amendoim na minha cama e dos corpos depositados no chão da sala que nem conhecia.
Lembro-me do Chileno, o J., amigo do C., meu amigo, que precisava de residência fixa no Porto e do licor que (nos)ofereceu (em troca da assinatura de permanência).
Lembro-me dos serões de estudo sóbrio e dos serões de estudo enevoado: com o J. (M.) e com a M. (L.), ambos do Porto, mas descobertos naquele ERASMUS galego.
Lembro-me de ti como refúgio/rotina/revolta...
A era já não antecipava nada e eis que as circunstâncias depositam novas imagens no álbum. D... Simplesmente, mesmo que por apenas dois meses, simplesmente o meu D... O meu ilheu EXTRAORDINÁRIO!
Agora a era não antecipa nada além de ser só. Bem! Sem expectativas! Bem! Provavelmente mesmo e decididamente bem. Estar e ser só!

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