Hoje li o meu horóscopo. Nunca acreditei em horóscopos mas hoje li o que estava na revista TV Guia dos meus pais para decorar o que supostamente me reserva o novo ano. Dizia qualquer coisa sobre expectativas conseguidas e mudança sentimental, conflitos familiares e progresso profissional. Decorei afirmação a nível pessoal e a parte em que a astróloga me aconselha a ser persistente e dedicada para alcançar os meus objectivos. Provavelmente, embora com outras palavras, ela aconselha isso a todos os signos. E o meu horóscopo para este novo ano é isto que projecta . Além deste exercício mental que incluía muito esforço de percepção e adivinhamento, fiz algumas das minhas resoluções de ano novo. Tu. Tu não estavas lá! Decidi que não podias estar, de novo, em todas as minhas projecções de futuro. Acho que me fartei de te ter no passado. É tormento demais imaginar-te no futuro. Quero-te longe de mim. Quero-te longe do que sou e do que decidi que vou ser. Quero-te longe de mim porque já não te quero em mim como sempre estás. Da dependência, meu amor, passei à saturação. A tua existência satura-me. Sentir-te cansa-me. Imaginar-te ao longo do dia é extenuante. Gostava, sem falsas ilusões, que não existisses. As recordações assaltam-me a todo o momento e nos momentos mais inesperados. Consigo, feliz, não te imaginar em períodos longos do dia. Entretida com a rotina. Entretida com as horas felizes em que não existes. Quando existes, por pior ou mais mal agradecido que isto te pareça, é mau. A sensação é má quando existes. Hoje, na casa de sempre, estás presente entre lembranças e sensações. Os sentidos estiveram voltados para o bem-estar dos meus ninõs que agora dormem. Nós ficamos. Sobrevivemos, ainda, à insanidade de dias sem paragens. Sobrevivemos a longas horas de vontade de sucumbir. Sobrevivemos à força dos impulsos e sobrevivemos à força das emoções. Acho que enlouquecemos no novo ano. Iguais não seremos. “Seremos” plural não existe no novo ano. Acho que A verdadeira decisão do novo ano é deixar-te aqui. Quero dormir, finalmente, sem ti. Já não raciocino se mereces estar em mim. Já não faço deduções sobre como me comportaria se de facto existisses. Já não alimento a ilusão de que existas. Sigo sem ti. E sigo feliz por só ter um italiano e uma brasileira naquele quarto. Por só ter arrumações domésticas para fazer. Por só ter de despertar para a vida no dia seguinte. Hoje soube que a ilusão de existires é cansativa demais para ser sustentável. E eu quero seguir feliz. Neste novo ano quero estar viva. Neste novo ano quero ser vida e estar vida e fazer vida. Não te quero a ti na dormência da quase morte espiritual. Neste novo ano não serei mais um corpo que se vai sustentando nas amarras de outros seres porque esses querem que eu me sustente. Neste novo ano quero-te longe de mim porque me quero a mim de volta. Vou desfrutar da minha estrelinha sem depositar nela a responsabilidade de ser o ar que respiro para ter pequenos momentos de felicidade genuína e espontânea. É pequenina demais a minha estrelinha para já ter a responsabilidade de sustentar a tia. Cansaste-me sem existires. No novo ano já não existes. E não existes porque quiseste mas porque eu não te quero mais.
No impulso das necessidades e das exigências de quem ainda me tenta sustentar, escrevi de novo e ilusionei-me de novo. “Ilusionar” não existe mas o meu niño fala assim na sua mescla de italiano com português, español e brasileiro. Também por ter, inesperadamente, passado este novo ano com ele e com a namorada doce do meu niño, uma brasileira simples muito bonita, assumi que “ilusionar” mais está fora da minha rota para o novo ano. Descer à terra para ser feliz com o que tenho. Deixar, lá atrás, o que não tenho. O que já nem quero! A ilusão da existência fica na dormência do ano velho, na dormência do passado, da ilusão do que teremos sido. Se fomos?!
A história, supostamente nova, não existe. Emigrou. Foi fugaz a ilusão do palpitar no peito. Mas foi boa. Foi nova. Foi libertadora. Ficou sem saber que existe um sem número de coisas que gostaria de partilhar. Não sabe nem vai saber, mas existe um sem número de sensações que sei que gostava de viver. Gostava, principalmente e muito, de estar em Avante. Na atmosfera ideológica, na anestesia inebriante de uma festa/comício. Não sabe mas sou grande parte dos seus ideais. Não sabe mas sobrevivo porque acredito em grande parte dessas directrizes. Não sabe mas alimento o ser esgotado que sou em grande parte por ter a certeza que o meu papel no mundo passa por dar a conhecer e apregoar e arranjar formas de partilhar... Sou, apesar de tudo, uma assinatura jornalística que se esforça por não emitir juízos ou opiniões. Até porque não sei dar nome ao que sou, apenas me reconheço no que defendo. Escondida! E SEM RÓTULOS!
Com esta postura, provavelmente fico abandonada antes mesmo de ter sido acolhida. Estou ciente da emigração. Mas decidi que não vou ansiar. Cansa-me muito ansiar e neste novo na ano quero ser tudo menos réstias de existência suportada por terceiros. Por isso, com todo o respeito que me merecem, quero ter forças para conseguir contribuir sem ter por inspiração, apenas, terceiros. Finalmente, nem que seja por uma vez rápida, efémera e momentânea, estou decidida a ser a inspiração de mim própria. Estou conformada/decidida de que posso/devo conseguir caminhar sozinha.
domingo
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário