no meio desta tentativa de procurar sinais e interpretá-los, não existe mecanismo de defesa que resista a mais momentos de puro masoquismo. Aquele masoquismo que devia ser vedado ao ser humano por ser redundante (sei-o bem mas é inevitável) e inútil. Existem mil sinais e interpretações para o que sinto. Alguns vão aparecendo por meio de frases de livros e letras de músicas, outros em conversas de amigos, outros nas caminhadas e coisas que encontro na rua num qualquer passeio à primeira vista inofensivo, alguns ainda nos restos que a história decidiu que tinha de ser eu a arrumar (a história enquanto sinónimo de cobardia camuflada de 'as coisas têm a sua alma no seu espaço' Lindo! De dizer...).
No “Canário” (há sempre um livro entre outros que demora a ser digerido e vai ficando para último) a certa altura uma mulher espera pelo homem de mesa posta e comida ao lume. Ele atrasa-se como tantas outras vezes e ela faz-lhe o prato e deixa-o pronto. Ele demora muito desta vez. Provoca-lhe preocupação até que, como se a conclusão estivesse ali à frente dos seus olhos, ela despeja o prato no lixo: “…e quando pegas novamente no telefone olhas o lugar vazio à mesa, escutas a ausência da chave na porta, nenhum ruído de carro a estacionar, pegas no telefone mas logo o voltas a pousar, claro, que estúpida, entendes agora, entendes de vez, que estupidez adiantares conversas, perguntas, respostas, alívios, remorsos, que parvoíce não teres antecipado isto, que ele simplesmente não virá mais, que não terás oportunidade para dizer ou ouvir, que na tua febre de preocupação não reparaste nisto, ele não vem, bem podes marcar o número de telefone…”.
Quis sentir que ela era mais injustiçada porque era mulher e mãe e tinha o jantar pronto. Só que depois lembrei-me dela como personagem de um livro e senti que não há injustiça na ficção que resista ao sentimento de ter sido roubada mesmo sem ser mulher e sem ser mãe. Entretanto tentei criar uma ponte entre a ficção e a ilusão para me certificar que o roubo era igual. E percebi que vivi a ilusão mais bonita do Mundo porque vivi a ilusão de ser mulher e de ser mãe e roubaram-me como se de ficção se tratasse.
'Passa à frente esse parágrafo do livro porque agora já não me apetece manter os mesmos pares românticos', imagino que terá dito o escritor. Não me contaram o que estava escrito nos rascunhos daquela história, por isso acho que a minha personagem ficou num beco sem saída.
Isto a propósito de sinais e de interpretações… (Mais valia que não tivesse nascido comigo esta vontade de pensar no que existe e no que não existe. Mas há muito que sou assim e há muito que me esforço por mudar. Encolher os ombros e ' o que é que se há-de fazer')
Não foi a partir desta passagem que comecei a tentar juntar as fracções de segundo preciosas daquele último momento a sós, juntos, unos. Sempre o fiz. Mas com a pior das sensações de perda que se podem sentir (a morte (ainda me doi a palavra) a morte) porque são irreversíveis, percebi como era urgente juntar as fracções de segundo todas, não para parar o tempo como queria conseguir com o meu avô um pé antes daquela passadeira do Toural, mas para perceber o tempo e encará-lo de frente. De uma vez por todas! Comecei então a juntar os segundos que antecederam a saída do café onde lhe dei a prenda de aniversário atrasada que incluía um bilhete para um passeio turístico no Porto. Ouvi: 'Quando vamos?'. Juntei o momento em que, depois de pagar, insisti que não era preciso acompanhar-me à porta apesar dos corpos quererem ficar mais tempo juntos. E até já podiam sem remorsos. As fracções de segundo incluem beijos, abraços, suspiros, trocas de amor, saudades adivinhadas, olhares profundos, dedos que colam no exacto momento de despegar, e qualquer coisa como 'até amanhã…'.
Sem conseguir mais do que isto, do que juntar estas fracções de segundo, ainda aceito que a minha personagem tenha querido ser pró-activa e não se tenha conformado – pelo menos nas fracções de segundo que os outros acham aceitáveis para esse período de aceitação – com o destino traçado pelo escritor. Mas francamente, na ficção até entendo, mas no que não é ficção (mesmo que fosse ilusão) quem se conforma com um 'até amanhã' interminável, prolongado no tempo, que não conhece amanhã, nem respeita calendários, já para não falar de lembretes ou achegas na agenda… Pedidos, suplicas, pedidos simples, suplicas desesperadas… Eu não me conformo. Ou melhor… Ainda não me conformo!
O capítulo termina com esta frase: “A fazeres por não pensar que por cada fugitivo há sempre alguém que fica”.
Apenas concluo o raciocínio sobre a barreira, porque afinal não é ponte, entre a ficção e a ilusão, e junto a certeza de que a mim não me apanham mais numa trama de personagem secundária.
sábado
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