sábado

3.2

Apetece-me falar… Apetece-me quase sempre falar mas as palavras não saem. Acho que tenho um dicionário inteiro preso dentro de mim. Sabes o que é sentir os braços a cair? Não ter posição para os membros do corpo que ainda sustenta aquilo que penso ser uma carapaça qualquer que ainda resiste ao insustentável? Sabes o que é sentir desfalecer os movimentos? Sabes o que é sentir a dormência da solidão? Sabes o que é lutar contra a incapacidade de ser audaz? Lutar contra a incapacidade de por termo a isto? Contra a incapacidade de ser audaz?
Acontece-me muito quando estou a caminhar para a Oliveira… Decido que chego e chamo alguém à parte só para me ouvir falar. Acontece-me quando tenho gente cá em casa. Apetece-me acordar os corpos sonolentos ou desmaiados de álcool ou de cansaço e pedir que me ouçam até ao fim. Dizer que além de os acolher, os quero raptar para dentro dos meus pensamentos. Pedir-lhes que tentem ouvir-me até ao fim sem interromper e sem esperar raciocínios fluidos ou conclusões óbvias. Acontece-me quando vou com a minha irmã no carro e paramos no trânsito. Apetece-me gritar que não sou a fortaleza que ela admira e que também preciso que me ouçam. Acontece-me quando ouço o som da porta da Carina a bater. Quando era pequenina, aprendi a reconhecer o som daquela porta, do outro lado da rua, com uma nitidez que permanece até hoje. Ouvir aquele som podia significar que era hora de ir brincar. Queria fazer sopinha com as couves do quintal dela (eu não tinha quintal) ou pregar a saia ao chão e molhar-me e sujar-me junto das coelheiras e do galinheiro (eu não tinha animais em casa além de um pássaro preso numa gaiola, nem podia pousar a saia no chão de um quintal). Reconheço aquele som mesmo entre os autocarros mais barulhentos ou entre carros a estacionar dos dois lados sem ordem na rua mais estreitinha de todas as ruas. Agora reconheço aquele som e apetece-me correr e atirar tudo cá para fora. Dizer que não sou mais do que a menina que tem de ser protegida do lado de dentro da berma à ida para a escola. Pedir-lhe que me ouça até ao fim. Acontece-me quando a Sofia me pede para falar e as palavras não saiem. Acontece-me quando lhe digo que não é preciso porque “está sempre tudo bem”.
A Sofia é uma das pessoas que mais embirra com a minha incapacidade de partilhar palavras.
Lembro-me de te ter contado que um dia ela me disse, com a naturalidade verdadeira que só aquele miúda sabe ter: “Falas com ele, não falas? Então já gosto dele”. E lembro-me do orgulho que senti por ser a Sofia a gostar de ti em primeiro lugar.
E ela tinha razão. Eu falava. Eu falava tanto. Falava e falava. Palavras… E os silêncios… Lembro-me do orgulho que sentia dos nossos silêncios e como admirava o facto de não precisar de falar mais porque tu sabias tudo e sentias tudo como se as minhas palavras fossem tuas. Lembro-me de saber articular frases contigo. E lembro-me de saborear os teus sorrisos cúmplices quando nem precisa de articular nada. E eu falava. Falava e falava…
Estou doente. Criei uma dependência de ti. Dizem (os livros, as séries, as reportagens…) que o primeiro passo para se ultrapassar uma dependência é reconhecê-la. Eu estou doente de ti! Criei uma dependência dos teus braços, de sentir os teus pulsos, o sangue quente a correr nos teus pulsos, do cheiro que saia do teu peito quando lá repousava os ouvidos, do teu toque no meu corpo, das tuas t-shirts de viagens e das tuas camisas de molas, do teu olhar, das tuas mãos de homem, do teu olhar e das tuas mãos de homem, as tuas mãos de homem, sou dependente dos nossos planos, do nosso filho e da nossa casa rodeada de girassóis… Estou doente de ti. Assumi!
Eu falava tanto. Não parava de falar. Era feliz quando falava e partilhava e quando olhava em silêncio para as tuas mãos de homem grande e olhar de menino. Como o Outono… Aquele Outono que sinto como se tivesses banalizado. Doeu quando percebi como o “meu/teu” Outono deixou de ser “nosso”. Pareceu um número de magia. Só que foi daqueles em que uma das assistentes ficou escondida a dar cartas. Escondida, achava ela. Abandonada, afinal!
Apetece-me falar todos os dias e a toda a hora e as palavras não saem mas também não desistem de pairar numa qualquer atmosfera oculta de solidão que só prova como a cegueira é a primeira, afinal, cúmplice do destino.
Admiro a tua crença em relação à vida. Só acho que não devia ser vítima desse teu despeito.
Apeteceu-me falar há três, duas, uma noite atrás. Na última noite do Danilo nesta casa por pintar. Na noite em que levei a Cat do sofá para a cama para ficar mais aconchegada, mais quente, mais estendida, mais repousada. Na noite em que brinquei com a estrelinha e o levei ao berço. Apeteceu-me despertá-los todos e gritar-lhes que às vezes também quero colo.
Acho que me levaste até as palavras. Ficaste com tudo. És poderoso. Decidido, cruel e poderoso. Porque é que não te quero mal? Porque é que continuo – com “Mil Olhos de Vidro” – dependente de ti? “Pelo menos ignora-o” – pediram-me. Que sabem eles de nós? Ou melhor… Que sabes tu de nós? Além de saberes e sugares tudo de mim? Será que alguma vez soubeste de mim?


Desculpa! (não te peço a ti, mas à minha necessidade de sanidade. A ti, agora, pedir desculpa? Nunca!) Desculpa!


Sabes qual é a diferença entre estas noites minhas e as nossas? A posição à janela, a marca da cerveja e do tabaco, a música, as necessidades… É a mesma! São as mesmas! A diferença está nos braços que me suportam depois dos devaneios e das confidências. Hoje não tenho mais do que candeeiros de rua, acesos embora moribundos, e garrafas no frigorífico ou pedras escondidas na gaveta de sempre. Uma janela aberta e bêbados lá fora a fazerem figuras tristes que invejo. Hoje não tenho mais do que braços de nada. Se cair, se desfalecer, se desistir, não tenho a tua pele para me depositar, nem os teus poros para me ressuscitarem. Hoje não tenho senão amor para dar. Não tenho senão indiferença para receber.
A diferença está na sombra. A diferença está na forma de desabar. A diferença está os pés trocados até à cama que não são seguidos, no param para beijar, não param para rolar no chão, não param para pedir mais ali um bocadinho, mais acolá em força, mais adiante em força e mais já dentro devagarinho para sentir os meus dedos no teu cabelo e os teus dedos nos meus ombros. A diferença está na ida para o leito. Este, adiadamente, de morte. Antes de vida. Muita e muita vida! Sabíamos fazer vida. Se sabíamos. Em que parte é que te esqueceste como a fazíamos bem? Em que parte é que decidiste que tínhamos de experimentar a diferença?
Não mereces sequer a espera de respostas? Qual quinta-feira ou sexta-feira de manhã? Quem me desperta sempre, em sobressalto por achar que é agora e ainda tenho o leito quente, é o correio. Não mereces sequer o leito quente! Quem me dera que esse leito não fosse teu. Porque não o mereces! Quem me dera não te continuar a sentir salgado. Quem me dera não te continuar a ver em cada canto, em cada ladrilho da rua, em cada cartaz sobre novos concertos, em cada sensação que preciso partilhar, em cada ida à estação, em cada brisa nos ramos das árvores. Quem me dera não te sentir em cada aroma que passo no corpo que é teu. Quem me dera não te ver a jogar com os meninos na rua. Quem me dera não te sentir nos sentidos dementes e sedentos de amor. Quem me dera não te ouvir quando o Mestre fala comigo. Quem me dera não te ver nos triângulos em frente a casa.
Quem me dera interiorizar de uma vez.
“E é com silêncio que falas!”

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