Um dia, um dia que não estava planeado como um dia marcante,
um dia que era só um dia como tantos outros, pareceu-me ver um nó, um sopro, uma
espécie de névoa a desprender-se de mim e lembro-me de ficar a olhar, como
quando se vai no metro e se aprecia o Douro do alto da ponte D. Luís, só a
olhar para aquele desprendimento que me saia dos poros e se diluía no ar, na
terra, no nada. Não era um dia importante ou marcante. Não estava planeado que
fosse e nem passou a ser depois disso. Era só um dia como tantos outros, numa
rua qualquer, diante de uma paisagem banal, num contexto fútil qualquer. E
afinal não me pareceu ver, senti! Era um desprendimento. Aconteceu sem gerar
atividade física, nem, acho, mental. Não envolveu rolar de sal nem tensão nos punhos.
Aconteceu e só me lembro que o dia era simples e que vi uma espécie de névoa ou seria um sopro. Nem me sentei. Se bem me lembro, nem me sentei. O
dia continuou sem ganhar um significado maior do que aquele que carregam os
dias iguais a tantos outros. E a admiração ou a estranheza só me chegou mais
tarde. O desprendimento era liberdade. Percebi: a liberdade sabe a vento e
cheira a folhas de outono e tem cor de dia igual aos outros.
quarta-feira
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