quarta-feira

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O mais difícil é perdoarmo-nos nós. Talvez os outros nos perdoem mais facilmente porque os outros não sabem tudo. Os outros não sabem tudo, mesmo quando acham que sabem e mesmo quando não lhes falta informação. Os outros nunca sabem tudo porque não sabem porque é que o mais difícil é perdoarmo-nos nós.   

Não me lembro em que dia foi


Um dia, um dia que não estava planeado como um dia marcante, um dia que era só um dia como tantos outros, pareceu-me ver um nó, um sopro, uma espécie de névoa a desprender-se de mim e lembro-me de ficar a olhar, como quando se vai no metro e se aprecia o Douro do alto da ponte D. Luís, só a olhar para aquele desprendimento que me saia dos poros e se diluía no ar, na terra, no nada. Não era um dia importante ou marcante. Não estava planeado que fosse e nem passou a ser depois disso. Era só um dia como tantos outros, numa rua qualquer, diante de uma paisagem banal, num contexto fútil qualquer. E afinal não me pareceu ver, senti! Era um desprendimento. Aconteceu sem gerar atividade física, nem, acho, mental. Não envolveu rolar de sal nem tensão nos punhos. Aconteceu e só me lembro que o dia era simples e que vi uma espécie de névoa ou seria um sopro. Nem me sentei. Se bem me lembro, nem me sentei. O dia continuou sem ganhar um significado maior do que aquele que carregam os dias iguais a tantos outros. E a admiração ou a estranheza só me chegou mais tarde. O desprendimento era liberdade. Percebi: a liberdade sabe a vento e cheira a folhas de outono e tem cor de dia igual aos outros.

segunda-feira

7 * 365



Às vezes preferia não te ter conhecido. E logo de seguida arrependo-me de sequer supor essa ideia. Mas às vezes acho que seria mais fácil se nunca te tivesse conhecido. Consumiste-me o futuro. Por isso é que às vezes seria melhor nunca te ter conhecido. Antes, às vezes, tinha medo que isto durasse muito tempo. Agora, muitas vezes, tenho pena que dure para sempre. Por isso é que era melhor nunca te ter conhecido. Para ter futuro.


Nestes anos todos de ausência aconteceu-me passar por muitos estados… A dependência toda, a ilusão do regresso, o desespero do anonimato, do silêncio imposto a ferros, a tristeza da espera por receber o que se exigia: palavras… Pelo menos palavras! As saudades! As saudades! Mas também a raiva, o despeito, a certeza de que não merecia. A força! O orgulho na força! O alivio da certeza de que não mercecia!


Pelo menos daquela forma, não merecia. Pelo menos assim, não merecia. E essa ‘cruz’ será carregada a vida toda! Saberemos os dois, para sempre, que desta forma eu não merecia. Que esta certeza sirva pelo menos para o tal futuro roubado… E que nos sirva aos dois!


As saudades… Sinto saudades daquele trote louco e da felicidade toda a não saber caber no peito na mesma proporção com que sinto pânico do sofrimento, do ranger todo do mundo, do nó indescritível a consumir-me o peito, do anonimato que parece pôr-me o rótulo de desistente quando só por amor se desiste de ter futuro.