Às vezes preferia não te ter conhecido. E logo de seguida
arrependo-me de sequer supor essa ideia. Mas às vezes acho que seria mais fácil
se nunca te tivesse conhecido. Consumiste-me o futuro. Por isso é que às vezes
seria melhor nunca te ter conhecido. Antes, às vezes, tinha medo que isto
durasse muito tempo. Agora, muitas vezes, tenho pena que dure para sempre. Por
isso é que era melhor nunca te ter conhecido. Para ter futuro.
Nestes anos todos de ausência aconteceu-me passar por muitos
estados… A dependência toda, a ilusão do regresso, o desespero do anonimato, do
silêncio imposto a ferros, a tristeza da espera por receber o que se exigia:
palavras… Pelo menos palavras! As saudades! As saudades! Mas também a raiva, o
despeito, a certeza de que não merecia. A força! O orgulho na força! O alivio da certeza de que não mercecia!
Pelo menos daquela forma, não merecia. Pelo menos assim, não
merecia. E essa ‘cruz’ será carregada a vida toda! Saberemos os dois, para
sempre, que desta forma eu não merecia. Que esta certeza sirva pelo menos para
o tal futuro roubado… E que nos sirva aos dois!
As saudades… Sinto saudades daquele trote louco e da
felicidade toda a não saber caber no peito na mesma proporção com que sinto pânico
do sofrimento, do ranger todo do mundo, do nó indescritível a consumir-me o
peito, do anonimato que parece pôr-me o rótulo de desistente quando só por amor
se desiste de ter futuro.